Fidel Castro sobre Obama em Cuba.

Fidel Raúl

by Ecupres  *

O periódico Diário Registrado deu a conhecer hoje – 28 de março de 2016 – a opinião de Fidel Castro sobre a visita de Barack Obama a Cuba. O periódico menciona que esta nota foi publicada no diário Granma, de Cuba, também hoje, sob o título O irmão Obama. PE/Ecupres publica o texto completo de Fidel Castro, transcrito das páginas de Diário Registrado, que é o mesmo publicado no Granma e registra que até o momento – meio dia de segunda-feira, 28, Diário Registrado é a única mídia argentina que republicou a opinião de Fidel Castro sobre este tema.

Os reis da Espanha nos trouxeram os conquistadores e donos, cujas pegadas ficaram nas áreas circulares de terra dadas aos garimpeiros nas areias de rios, uma forma abusiva e vergonhosa de exploração, cujos vestígios podem ser vistos a partir do ar muitas partes do país.

O turismo hoje consiste em sua maior parte em mostrar as delícias das paisagens e saborear as iguarias dos nossos mares, desde que sempre seja compartilhado com o capital privado das grandes empresas estrangeiras, cujos lucros, se não alcançam bilhões de dólares per capita, não são dignos de qualquer atenção.

Já que me vi obrigado a mencionar o tema, devo acrescentar, especialmente para os jovens, que poucas pessoas se dão conta da importância de tal condição neste momento singular da história humana. Não direi que o tempo se perdeu, mas não vacilo em afirmar que não estamos suficientemente informados, nem vocês nem nós, dos conhecimentos e das consciências que deveríamos ter para enfrentar as realidades que nos desafiam.

A primeira coisa a considerar é que nossas vidas são uma fração histórica de segundo, que é preciso compartilhar também com as necessidades vitais de todo ser humano. Uma de suas características é a tendência à supervalorização de seu papel, o que contrasta por outro lado com o extraordinário número de pessoas que encarnam os mais elevados sonhos.

Ninguém, no entanto, é bom ou mau por si só.

Nenhum de nós foi projetado para o papel que deve assumir na sociedade revolucionária. Em parte, nós, os cubanos, tivemos o privilégio de contar com o exemplo de José Martí. Pergunto-me mesmo se ele tinha que cair ou não em Dos Rios, quando disse “para mim é a hora”, e se lançou contra as forças espanholas entrincheiradas em uma sólida linha de fogo. Ele não queria voltar para os Estados Unidos e não houve quem o fizesse regressar.

Alguém arrancou algumas folhas de seu diário. Quem carregou esta pérfida culpa? certamente a ação algum intrigante inescrupuloso. Sabe-se de diferenças entre os chefes, mas nunca indisciplinas. “Quem tentar se apoderar de Cuba recolherá o pó de seu solo encharcado de sangue, se não perecer na luta”, disse o glorioso líder negro Antonio Maceo. Reconhece-se também em Máximo Gomez, o chefe militar mais disciplinado e discreto da nossa história.

Olhando para isto desde outro ângulo, como não admirar a indignação de Bonifacio Byrne quando, desde a distante embarcação que o trouxe de volta a Cuba, ao divisar outra bandeira junto à da estrela solitária, disse: “A minha bandeira é aquela que jamais foi mercenária …”, para adicionar imediatamente uma das mais belas frases que eu jamais ouvi: “Se algum dia minha bandeira chegar a ser desfeita em pedacinhos… nossos mortos levantando os braços ainda a saberão defender…! “.

Tampouco esquecerei as ardorosas palavras de Camilo Cienfuegos naquela noite, quando a várias dezenas de metros, bazucas e metralhadoras de origem americana, em mãos contra revolucionárias, apontavam para o terraço onde estávamos. Obama nasceu em agosto de 1961, como ele mesmo disse. Mais de meio século se passaria a partir desse momento.

Vejamos de todos os modos como pensa hoje nosso ilustre visitante:

“Eu vim aqui a fim de deixar para trás os últimos vestígios da Guerra Fria nas Américas. Vim aqui estender a mão da amizade ao povo cubano”.

Imediatamente um dilúvio de conceitos, totalmente novos para a maioria de nós:

“Ambos vivemos em um novo mundo colonizado pelos europeus”, prosseguiu o presidente dos EUA e continuou. “Cuba, tal como os Estados Unidos, foi constituída por escravos trazidos da África; tal como os Estados Unidos, o povo cubano herdou escravos e senhores de escravos.”

Os povos nativos nem sequer existem na mente de Obama. Nem diz ele que a discriminação racial foi varrida pela revolução; que a aposentadoria e o salário de todos os cubanos foram decretados por esta antes que o senhor Barack Obama completasse 10 anos.

O odioso costume burguês e racista de contratar capangas para que os cidadãos negros fossem expulsos de centros de recreação foi varrido pela Revolução Cubana. Esta seria passaria à história pela batalha que travou em Angola contra o apartheid, pondo fim à presença de armas nucleares em um continente de mais de um bilhão de pessoas.

Não era esse o objetivo da nossa solidariedade, senão ajudar os povos de Angola, Moçambique, Guiné-Bissau e outros do domínio colonial fascista de Portugal.

Em 1961, apenas um ano e três meses após o triunfo da Revolução, uma força de mercenários com canhões e infantaria blindada, equipada com aeronaves, foi treinada e acompanhada por navios de guerra e porta-aviões dos EUA, invadindo de surpresa o nosso país.

Nada poderá justificar aquele traiçoeiro ataque que custou a nosso país centenas de baixas entre mortos e feridos. Da brigada de assalto pro-yankee nada consta em qualquer parte que se houvesse podido evacuar ao menos um mercenário. Aviões yanques de guerra foram apresentados às Nações Unidas como equipes cubanas sublevadas.

É muito bem conhecida a experiência militar e o poderio desse país. Na África se acreditava também que Cuba revolucionária seria facilmente posta fora de ação. O ataque pelo sul de Angola por parte das brigadas motorizadas da racista África do Sul os leva até as proximidades de Luanda, a capital deste país. Aí inicia-se uma luta que durou não menos de 15 anos. Eu nem sequer falaria disso se não tivesse o dever elementar de responder ao discurso de Obama no Gran Teatro Alicia Alonso de La Habana.

Não tentarei tampouco dar detalhes, apenas enfatizar que ali se escreveu uma página honrosa da luta pela libertação do ser humano. De certa modo eu desejava que o comportamento de Obama fosse correto. Sua origem humilde e sua inteligência natural eram evidentes. Mandela estava preso para toda a vida e havia se convertido em um gigante na luta pela dignidade humana. Um dia chegou às minhas mãos um exemplar do livro em que é narrada uma parte da vida de Mandela e oh, surpresa: foi prefaciado por Barack Obama. Eu o folheei rapidamente. Era incrível o tamanho da minúscula letra de Mandela precisando dados. Vale a pena ter conhecido homens assim.

Sobre o episódio da África do Sul devo salientar uma outra experiência. Eu estava realmente interessado em saber mais sobre como os sul-africanos haviam adquirido armas nucleares. Só tinha a informação muito precisa de que não passavam de 10 ou 12. Uma fonte confiável seria o professor e pesquisador Piero Gleijeses, que havia redigido o texto “Missões em conflito: Havana, Washington e África 1959-1976”; um excelente trabalho. Eu sabia que ele era a fonte mais segura do que havia acontecido e então fiz contato. Ele me respondeu que não havia falado mais sobre o assunto, porque no texto havia respondido às perguntas do companheiro Jorge Risquet, que tinha sido embaixador ou colaborador cubano em Angola, muito amigo dele.

Localizei a Risquet. Já em outras ocupações importantes, ele estava terminando um curso e lhe faltavam várias semanas. Essa tarefa coincidiu com uma viagem bastante recente de Piero a nosso país. Já o havia advertido que Risquet era já idoso e sua saúde não era ideal. Poucos dias depois, aconteceu o que eu temia. Risquet piorou e morreu. Quando Piero chegou nada mais podia ser feito a não ser promessas, mas eu já tinha conseguido informação relacionada àquela arma e sobre a ajuda que a África do Sul racista tinha recebido de Reagan e de Israel.

Não sei o que Obama teria a dizer sobre esta história agora. Eu não sei se a conhecia ou não, embora seja muito duvidoso que absolutamente nada soubesse. Minha modesta sugestão é que reflita e não tente agora elaborar teorias sobre a política cubana.

Há uma questão importante:

Obama fez um discurso no qual ele usa as palavras mais melosas para se expressar: “É chegada a hora de esquecermos o passado. Deixemos o passado, olhemos para o futuro, vamos olhar juntos, um futuro de esperança. E não vai ser fácil, haverá desafios, e a estes vamos dar-lhes tempo; mas minha estadia aqui me dá mais esperança do que podemos fazer juntos como amigos, como família, como vizinhos, juntos “.

É de supor que cada um de nós se correu o risco de um infarto ao ouvir estas palavras do Presidente dos Estados Unidos. Depois de um bloqueio implacável que durou quase 60 anos! E aqueles que morreram nos ataques de mercenários a barcos e portos, um avião cheio de passageiros, explodido em pleno voo, invasões mercenárias, múltiplos atos de violência e força?

Ninguém se iluda de que o povo deste nobre e abnegado país renunciará à glória e aos direitos, e à riqueza espiritual que ganhou com o desenvolvimento da educação, da ciência e da cultura

Advirto, alem disto, de que somos capazes de produzir os alimentos e as riquezas materiais de que necessitamos pelo esforço e a inteligência de nosso povo. Não necessitamos de que o império nos presenteie com qualquer coisa. Nossos esforços serão legais e pacíficos, porque nosso compromisso é com a paz e a fraternidade com todos os seres humanos que vivemos neste planeta.

Fidel Castro Ruz

Março 27, de 2016 + (PE/Diario Registrado)

*Versión en portugués del artículo publicado por Ecupres  el 28 de marzo de 2016 La traducción es del  Prof. Sérgio Marcus Pinto Lopes, Tradutor e Intérprete http://www.terrafirmerevisores.com.br/

 Observación   Al inicio y al  final del artículo emitido por Ecupres, en español, hubo un  error repetido. Se colocó la fecha Marzo 27 de 2006 cuando en realidad es Marzo 27 de 2016 Pedimos nuestra disculpa.

 

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