“Na Igreja, nos seminários, nos centros de estudos teológicos, há medo, muito medo”

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“Como apresentaremos o evangelho nesta época em que vivemos?
Por José Maria Castillo
Espanha

Como é que é se pode defender que a morte de Cristo foi um “sacrifício ritual”, de que Deus necessitou para perdoar-nos de nossas maldades e nos salvar para o céu?

Pela lei da vida, a grande geração de teólogos, que tornaram possível a renovação teológica levada a cabo pelo Concílio Vaticano II, está prestes a se extinguir completamente. Nas décadas seguintes, infelizmente, não surgiu uma nova geração que tenha podido continuar o trabalho que os grandes teólogos do Século XX iniciaram.

Os estudos bíblicos, alguns trabalhos históricos e algo também com relação à espiritualidade, são áreas de trabalho teológico que permaneceram com dignidade. Mas mesmo importantes movimentos, tal como aconteceu com a teologia da libertação, dão a impressão de que estão vindo abaixo. Espero estar equivocado.

O que aconteceu na Igreja? O que está acontecendo conosco? O que primeiro deveríamos considerar é que é muito grave o que estamos vivenciando nesta ordem das coisas. As demais áreas do saber não param de crescer. As ciências, os estudos históricos e sociais, especialmente as mais diversas tecnologias, nos surpreendem a cada dia com novas descobertas. A teologia, no entanto, (falo especificamente da católica) se mantém firme, alheia ao desalento, interessando a cada dia menos pessoas, incapaz de responder às perguntas que muitas pessoas se fazem e, acima de tudo, determinada a manter como intocáveis, supostas “verdades” que eu não sei como se pode continuar a defender a esta altura.

Para dar alguns exemplos. Como podemos continuar a falar de Deus, com a segurança de que estamos dizemos o que ele pensa ou quer, sabendo que Deus é o Transcendente, e que – portanto – não está a nosso alcance? Como é possível falar de Deus sem saber exatamente o que dizemos? Como se pode garantir que “por um só homem entrou o pecado no mundo”? Será que vamos apresentar como verdades centrais da nossa fé o que na realidade são mitos que têm mais de quatro mil anos de antiguidade? Com que argumentos se pode assegurar que o pecado de Adão e a redenção desse pecado são verdades centrais da nossa fé?

Como é que é possível defender que a morte de Cristo foi um “sacrifício ritual” de que Deus necessitou para perdoar-nos de nossas maldades e nos salvar para o céu? Como se pode dizer às pessoas que o sofrimento, a desgraça, a dor e a morte são “bênçãos” que Deus nos manda? Por que continuamos a manter rituais litúrgicos que têm mais de 1.500 anos de idade e que ninguém entende ou sabe por que eles continuam a ser impostos sobre as pessoas? Realmente acreditamos naquilo que nos é dito em alguns sermões sobre a morte, o purgatório e o inferno?

Em fim, a lista de perguntas estranhas, incríveis e contraditórias nos seria interminável, enquanto as igrejas seguem vazias ou com algumas pessoas mais idosas que vêm à missa por inércia ou por costume. Nesse meio tempo, nossos bispos atiram seus gritos ao céu por questões de sexo, enquanto se calam (ou fazem afirmações tão genéricas que equivalem a silêncios cúmplices) perante a quantidade de abusos de crianças cometidos por clérigos e perante abusos do poder cometidos por aqueles que manejam este poder para abusar de alguns, roubar a outros e humilhar aqueles que estão a seu alcance.

Em minha modesta maneira de ver, insisto em que o problema está na pobre, paupérrima, teologia que temos, uma teologia que não leva a sério o mais importante da teologia cristã, a “encarnação” de Deus em Jesus, o chamado de Jesus que o sigamos. O caráter exemplar da vida e do projeto de Jesus. E a grande questão que os crentes teríamos que enfrentar: Como apresentaremos o evangelho nesta época e nesta sociedade em que vivemos?

Termino insistindo em que o controle de Roma sobre a teologia tem sido muito forte, desde o final do pontificado de Paulo VI à renúncia papal de Benedito XVI.

O resultado tem sido tremendo: na Igreja, nos seminários, nos centros de estudos teológicos, há medo, muito medo. E sabemos que o medo paralisa o pensamento e bloqueia a criatividade.

A organização da Igreja, nesta ordem de coisas, não pode continuar como tem estado ha tantos anos. O papa Francisco quer uma “Igreja em saída”, aberta, tolerante e criativa. Mas seguiremos em frente com esse projeto? Infelizmente, na Igreja há muitos homens com bastões de mando, que não estão dispostos a soltar o poder, tal como eles o exercem. Bem, se assim for, vamos em frente! Em breve teremos liquidado o pouco que nos resta. + (PE / Fé Digital)

José María Castillo, teólogo espanhol.

Traducción. Prof. Sérgio Marcus Pinto Lopes Tradutor e Intérprete
http://www.terrafirmerevisores.com.br/
Skype: sergio.marcus1

SN 180/17

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