O duplo desafio de um Fórum Social ao mesmo tempo mundial e virtual

A duas décadas de seu nascimento, o FSM se reinventa na pandemia

De 23 a 31 de janeiro de 2021  

Por Sergio Ferrari Ginebra

Ginebra 20 anos após seu nascimento em Porto Alegre, Brasil, o Fórum Social Mundial (FSM) inaugura uma nova edição no sábado, 23 de janeiro. Será a mais longa de sua história –9 dias de atividades– e, talvez, a mais especial devido à situação internacional imperante e ao seu perfil essencialmente virtual

Condicionado pela crise pandêmica global, o movimento altermundialista decidiu reinventar-se criativamente. Foi autoconvocado, sem uma sede geográfica determinada, no grande espaço etéreo. Em apenas três meses, a partir do final de outubro, propôs e promoveu esta nova edição do FSM 2021, prestes a começar (https://wsf2021.net/).
Forte participação
O otimismo dos organizadores é evidente. A 48 horas do início, mais de 5.00 inscrições foram contabilizados englobando gente de quase 80 países. Cerca de 600 organizações de todo tipo -associativas, de mulheres, de cooperação, sindicais, indígenas, religiosas, de economia popular, camponesas, de direitos humanos, educativas etc.- anteciparam sua participação e mais de 400 atividades compõem um programa assentado em diversos eixos temáticos. São eles: clima-ecologia; paz e guerra; justiça social e democracia; justiça econômica; sociedade e diversidade; comunicação-educação e cultura; feminismos, sociedade e diversidade; povos indígenas e originários.

A metodologia proposta busca promover uma reflexão transversal sobre o futuro do próprio FSM, sobre a situação pandêmica, a luta contra o racismo, bem como sobre gênero e feminismos. (https://wsf2021.net/espacios-tematicos/).

“No momento, se olharmos para os números, um dos eixos que mais chama a atenção entre os inscritos é o da comunicação, educação e cultura. Embora não queira me aventurar em interpretações rápidas, poderia expressar o grande interesse em consolidar o espaço conceitual diante da avalanche de narrativas que o sistema hegemônico nos impõe”, explica François Soulard, francês de nascimento, cosmopolita por militância e, há alguns anos, residente na Argentina. Especialista em comunicação, é um dos ativistas que assumiram a responsabilidade pela construção da base técnica para garantir essa tanto original quanto complexa edição do FSM 2021. “No momento tudo está marchando como planejado. E se, de certa forma, em edições anteriores do FSM a complicação foi a linguagem, nesta edição podemos imaginar que a tecnologia é mais uma linguagem. O FSM sempre fez malabarismo com os idiomas”, reflete Soulard.

Dois sites como suportes O FSM 2021, explica ele, existirá em torno de dois sites. Um deles, o https://wsf2021.net/, onde está a apresentação do fórum, se recapitula o processo de elaboração da convocatória 2021, há intercâmbio de conteúdos de reflexão na fase preparatória, bem como os boletins informativos divulgados. O outro, https://join.wsf2021.net/?q=pt-pt  , é o meio para garantir a inscrição dos participantes, cadastrar as organizações, bem como propor atividades e iniciativas. Também contém o calendário diário e as atividades inscritas.

O sistema que está sendo montado, explica François Soulard, permitirá “recompilar as atividades por dia, hora, eixo temático e seus títulos. Uma organização pode propor que sua atividade seja aberta, semiaberta ou fechada”. Os jornalistas interessados em cobrir ou participar do FSM também podem credenciar-se em https://join.wsf2021.net/?q=node/65. A estrutura geral das atividades responde a duas lógicas principais: as autogestionadas e os painéis de discussão promovidos pelo próprio Grupo Facilitador da FSM -que é o órgão focado na organização desta edição- e pelos grupos temáticos. O programa base é bem rico, muito diverso e de visões associativas muito variadas: https://join.wsf2021.net/?q=programa-evento.

Ferramentas abertas e soberanas
O objetivo é garantir, explica Soulard, traduções simultâneas e coordenação de tempo com 24 fusos horários. O funcionamento será, fundamentalmente, estruturado com base no uso de ferramentas livres, abertas e soberanas; ou seja, autogestionadas fora dos monopólios digitais. “Parte do funcionamento diz respeito a uma visão democrática e aberta da comunicação que abrange certas tecnologias de código aberto e o conhecimento de grupos ativistas. É claro que não exclui tecnologias privadas que estão muito difundidas e com funções às vezes difíceis de igualar”, ressalta. “Uma parte da estrutura tecnológica da comunicação em si é assumida por dois atores: o movimento MayFirst, bem como a plataforma Dunia, da qual participo e coordeno”, explica Soulard. Várias redes, como a Ciranda e o Fórum Mundial de Mídia Livre, acompanham o trabalho, particularmente na facilitação e na difusão”, explica o militante associativo francês.

Existe o risco de as redes não suportarem o acesso simultâneo de um grande número de inscritos entrar na mesma atividade ao mesmo tempo? “Sim, é possível, embora tentamos prever que essa possibilidade não ocorra. Além disso, há filtros antiataques para preservar a ocorrência de eventuais agressões virtuais que poderiam, intencionalmente, tentar complicar o funcionamento”, explica.

20 anos: de Porto Alegre à linguagem virtual
O entusiasmo é imenso e os esforços “logísticos da preparação”, como em todas as edições anteriores do FSM, passam, essencialmente, pelo grande esforço humano-organizativo de inúmeros militantes. Embora nesta edição, em particular, eles sejam forçados a priorizar e a desenvolver a linguagem digital. A corrida contra o tempo foi intensa, quase uma maratona. A fase final da organização deste FSM 2021 foi lançada no final de outubro do ano passado, com uma experiência muito valiosa, que serviu quase como uma repetição geral prévia: o Fórum Social das Economias Transformadoras (https://transformadora.org/fr/inici), que, devido à pandemia, teve que ser conduzido inteiramente de forma virtual. “O Outro Mundo Possível” de Porto Alegre 2001, 2002, 2003, 2005; de Mumbay 2004; de Nairóbi 2007; de Belém de Pará 2009; de Dakar 2011; da Tunísia 2013-2015; de Montreal 2016 e de Salvador da Bahia 2018 hoje enfrenta um mundo tumultuado em profunda crise pandêmica e civilizatória. Coloca na mesa do balanço necessário toda a experiência acumulada dessas edições anteriores, dos eventos descentralizados, dos fóruns nacionais, continentais e temáticos, das novas redes sociais internacionais, bem como das grandes mobilizações cidadãs que esse processo promoveu e convocou em seus poucos 20 anos de vida. Processo que não se paralisa nem se põe em dúvida. Em um presente em que altermundialismo, criatividade e renovação mais do que nunca se entrelaçam. Conscientes de que a aposta em Outro Mundo Possível, no planeta Terra 2021, também está escrita em linguagem virtual. (PE)  
FSM2021: inscrição e participação: https://join.wsf2021.net/?q=pt-pt
 Servicio em Portugues Tradução: Rose Lima
SN 029/21

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